Pais que matam filhos ou como o jardim está sujo

Acordei para a notícia d’um pai em Braga que espetou o carro, matando-se a ele e deixando a própria filha de 4 anos em estado grave. O motivo teria sido “vingança” para com a mãe da menina.

E isto fez-me pensar que um dos pilares da sociedade continua frágil, frágil: a sanidade mental do nosso vizinho do lado.

“Mas como é que se pode gostar mais do homem ou da mulher do que dos filhos?” pergunta muita gente. Sinceramente não creio que seja só esse o problema.

Vendem-se 23 mil caixas de antidepressivos AO DIA em Portugal (saber mais). E como todos sabemos, isso é apenas uma pequena parte da população que percebe o que tem e que vai ao médico. Todos os outros, como lês e vê todos os dias, andam por aí.

O problema é – quanto a mim – a própria definição de sanidade mental. O gajo que fez isto pagava renda. Ia trabalhar. Tinha carta-de-condução. Ia votar. Antes disto, dirias que era maluco?

“Então sugeres o quê, Zangado, pa resolver?”

Com a dor-de-cabeça qu’estou hoje? Duvido, até porque falta falarmos aqui de tanta coisa;

  • A carência extrema que se nota, cada vez mais, em elementos separados do casal, e que não raramente tem origem em pais ausentes, medos inconscientes que ficaram desde da infância, traumas da adolescência, etc.
  • Ou como jamais iremos ver neuropsicologia na TV em horário nobre.
  • Ou como continua absolutamente fora de questão usar a escola para ensinar os putos a meditar, a gerir emoções e tudo menos a puta das equações que nunca nenhum de nós usou na vida.

Como estamos numa sociedade construída com base no valor e na troca, há cada vez mais quem queira ser amado primeiro e amar o outro, só depois, caso se sinta amado em pleno (para mais ler “O Amor é Fodido”).

E diz-te aqui o Zangado, especialistas nas questões da alma, que não raramente foi por isso que as tuas outras relações falharam.

E sim, mães solteiras mais preocupadas em arranjar homem de que com os vossos próprios filhos, a boca estende-se a tantas de vocês. Aliás, não é diferente no outro lado. Boa parte dos homens que conheço não nasceram para relações a dois. Porquê insistir? Porque sentem falta de ser amados, conforme foram em bebés? (Freud explica tanto que chega a ser absurdo)

Bom, mas entre a piadola para aligeirar um assunto tão maçudo e a vontade que tenho de ver a sociedade focar-se no que realmente importa, só consigo pensar em quem sobrevive a esta treta. Se não morrer nos cuidados-intensivos do Hospital de Coimbra onde está agora internada, a miúda terá de perceber que o próprio pai a tentou matar.
Duvido que o ultrapasse e – sejamos sinceros – é provável que jamais tenha uma relação dita “saudável”.

Aliás; depois de ter finalmente percebido o poder do amor e como este se pode espalhar como fogo no Verão, reparei que com o seu oposto (ódio, rancor, raiva, etc) é EXACTAMENTE o mesmo.

Ainda sobre este caso e mais concretamente sobre a mãe; é demasiado fácil para quem está de fora dizer “ela devia ter visto o animal com quem vivia”. É fácil, e profundamente injusto de s’escrever numa rede social dona Maria. Especialmente quando esta mãe não sabe se no fim do dia terá d’enterrar a sua filha.

É super-fácil procurar culpados de incêndios quando não conhecemos quem ainda não foi a enterrar. É super-fácil chamar maluco ao outro. O que não é tão fácil assim, é digerir uma sociedade que ignora componentes tão importantes que a fazem, como é a saúde mental dos seus elementos.

Por exemplo, pela extensão e temática, sei perfeitamente que teria mais e melhores resultados com uma piadola sobre o Benfas de que com esta divagação. Lamento, mas não consigo.
Amanhã o CM lá terá mais uma família destruída por insanidade mental, que nos irá chocar a todos, mas que na prática, nem um debate sério e generalizado conseguirá iniciar, uma vez mais.

Enquanto não regarmos as nossas plantinhas com compaixão e queimarmos as silvas do “quero lá saber”, garanto-te qu’este jardim continuará a lixeira que é. E as consequências de tal, tão graves como as deste caso.

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