Devemos dar um pontapé às salas de chuto?

“Mas quê?! Agora vou andar a sustentar drógados, Zangado?” Calma. Vamos reflectir os dois sobre a importância das salas de chuto e como a adição às duras está novamente a aumentar em Portugal.

Tendo nascido na década de oitenta num bairro social do Porto, podes imaginar que tive contacto directo quanto baste com a epidemia de heroína que varreu o país. Cresci a ver o Jaime e o irmão apodrecerem lentamente co’a SIDA. O Pastilhas a oferecer produto a putos a ver se os agarrava conseguindo assim a sua mai barata e por aí a fora.

A escola do Cerco, onde andei, tinha apenas um muro a separar dos blocos já conhecidos como o “super-mercado” tantos eram os clientes madrugada fora. Vi mães e filhos à porrada até se ver sangue; vi tiros e carros a arder. Vi grávidas pontapeadas escadas a baixo por um power ranger azul; e vi o senhor Magalhães, que diz o povo, foi comprar ele mesmo a última dose para a filha se livrar, de vez, do pesadelo.

Posto isto; alguma boa alma teve a excelente ideia de instituir um programa de troca de seringas e evitar que mais putos como eu crescessem a ver – ainda que ao longe – tal miséria.

“Que não se droguem Zangado! Era o que mais faltava andar eu a pagar tudo isto!”

Deixa ver se te consigo explicar isto: há uma clara prevalência de problemas mentais não-diagnosticados e violência nos meios mais pobres. A agressão passa-se de geração em geração e qualquer remédio parece bom. Especialmente nas tão comuns e difíceis situações que pessoas de tal meio sofrem regularmente.

Com clara colaboração das mais altas chefias (apenas um de muitos exemplos: https://www.publico.pt/2016/04/05/sociedade/noticia/inspector-da-pj-e-policia-reformado-detidos-por-suspeitas-de-corrupcao-1728157), o remédio chega rápido, fácil e a relativo baixo custo.

E se o teu problema são contas, o Rui Coimbra, membro da associação CASO (Consumidores Associados Sobrevivem Organizados), explica melhor: “Deixar passar mais um dia pode significar mais 20 hepatites C. Não consigo perceber como é que um decisor político pode deixar passar mais um dia sem avançar com a criação das salas de consumo. Vamos todos pagar muito mais” disse em entrevista ao Jornal Público.

Rui Coimbra andou às voltas com os jornalistas do Público para lhes mostrar in loco os locais da cidade onde o consumo de cocaína e heroína fumadas e injectadas a céu aberto regressou em força.

Do bairro do Cerco ao Aleixo, passando pela Pasteleira, Viso e Ramalde. O mesmo acontece em Lisboa onde – diz – o consumo de rua de heroína e cocaína voltou a disseminar-se nos últimos anos em zonas como Alcântara, Lumiar, Mouraria e Intendente.

“‘Atão temos que encarar isto como uma doença?”

Mais como uma reacção natural ao poço de estrume para onde temos vindo a ser atirados por gajos de fato e gravata. Mas sim, é uma adição – quase sempre – relacionada com níveis baixos de escolaridade ou problemas psiquiátricos. É, por isso, o mínimo que podemos fazer; deixar o pessoal ocupar terrenos vagos e meter lá os seus contentores e hortinhas e tudo isso.

Garante-te quem anda no terreno: resulta. E se acabarem, acaba-se o apoio de dezenas de voluntários que não ganham um tostão. E quando tens uma vida preenchida por episódios de miséria, sendo abandonado, aparece sempre alguém a querer ajudar. E só a 10 paus. Ainda por cima.

Juízo.

E já agora: na ‘Mérica – também inundada com a pior crise de opiódes de sempre – são muitos os que estão a manter-se limpos usando apenas a miraculosa plantinha que já não é proibida em vários estados. Olha, já sei! ‘Tá resolvido! Legalize a cena, e x por cento dos lucros vai para financiar as salas de chuto. Bum! Resolvido.

Ora essa, de nada.

Fotografia de Paulo Primenta

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