Nuno Markl, a derradeira Entrevista

Darth Vader e Anakin Skywalker. Batman e Joker. Tom e Jerry. Markl e Zangado. Duas gerações em conflito, o aluno que pica o mestre, o mestre que não resiste ao aluno. Alguma tensão sexual pelo meio e eis que surge a entrevista ao que é visto por alguns como o mais competente argumentista de comédia e por outros como um gajo com falta de atenção. A verdade é que sem ele não havia muita coisa boa e pronto, achei que lhe devia dar uma oportunidade. Pessoas, em discurso directo, Nuno Markl.

Já ninguém se lembra quando eras pobre, feio e tinhas uma rubrica de notícias bizarras há quase 20 anos, mas tudo isto começou com O Homem que Mordeu o Cão. Sentes que teve impacto suficiente para outros marmanjos te copiarem descaradamente a fórmula?

Antes de mais, obrigado pela ideia de que já não sou feio. Nunca pensei que isto começasse com essa doçura gostosa, vindo de quem vem. Respondendo à questão: é profundamente triste marmanjos copiarem uma fórmula que nem sequer é uma fórmula. É, na verdade, a mais velha coisa do mundo – excluindo a prostituição: contar as notícias bizarras que costumam aparecer nos rodapés dos noticiários. A única coisa que fiz foi contá-las à minha maneira e depois expandir o conceito da coisa e fazer das histórias bizarras o ponto de partida para uma quantidade insana de coisas. Quando acusam o Homem Que Mordeu o Cão de ser mainstream, eu rio-me, porque apesar de ser bem sucedido e de ter dado azo a livros e espectáculos, na sua essência é a coisa mais constantemente experimental que faço. Calha ter cativado a estima das pessoas, talvez porque quando começámos a fazer isto em 97 não estava a acontecer grande coisa na rádio, em Portugal. Foi fácil, não havia grande concorrência na altura.

Deixaste finalmente o 5 para a Meia Noite. Como foi trabalhar na televisão número um das Touradas? E sim, fala lá do Animais Anónimos.

A RTP passa touradas desde os tempos do preto e branco. Fico feliz que agora haja esta fúria sobre tão sangrento e desumano espectáculo, mas ao mesmo tempo quando vejo pessoas a apontar-me o dedo por trabalhar no canal que passa touradas e a clamar por boicotes, penso “mas porquê só agora, já que há touradas desde sempre na RTP e eu trabalho no e para o canal público há anos e anos?”. Mas enfim, no que toca a perceber-se a falta de sentido das touradas, mais vale tarde que nunca. A RTP passa touradas, infelizmente, mas sempre me deu liberdade para, na própria emissão da RTP, mandar valentes traulitadas nas touradas, seja sob a forma de piadas ou a falar a sério. Já que ainda não é possível, mais do que a RTP deixar de transmitir touradas, as touradas acabarem, pelo menos que o conceito de serviço público signifique que, num mesmo canal, há espaço para se ser do contra, sem que isso seja considerado incoerente. O Animais Anónimos é uma raridade nas programações televisivas: um programa informativo, divertido, didático e de serviço público sobre o respeito pelas outras espécies. A maioria dos programas são sobre seres humanos, por isso é refrescante fazer um sobre animais, nesta altura.

Irritas imensa gente com a tua defesa dos animais. Não é o meu caso, que entretanto descobri que sempre fizeste qualquer coisa com os do nariz vermelho. Porquê animais e não gente com fome, empregados do Continente mal-pagos ou qualquer outra causa não-lucrativa?

Eu gosto de irritar pessoas, sobretudo se for com coisas em que acredito profundamente. Junta-se o útil ao agradável. No que toca a ajudar gente com fome, trabalho com a Refood, nobre organização que ajuda gente com fome. O problema das pessoas que me acusam de ligar a animais e não a humanos é falarem sem saber a informação toda, sem sequer se darem ao trabalho de pensar “bom, antes de acusar este gajo de fazer isto ou não fazer aquilo, deixa-me ver antes se ele fez ou não”. É o drama da era da Internet: nunca se teve tanta informação à mão e nunca se andou tão mal informado. Dispara-se primeiro, pensa-se depois. Quando se pensa. Outro dia um gajo qualquer acusou-me de não denunciar as touradas. Tive de lhe mandar o link do vídeo que fiz para a ANIMAL com o Ricardo Araújo Pereira. Fala-se bué na Internet. Mas diz-se pouca coisa de jeito. Seja como for, muita malta descobriu a vertente saco de pancada da net. Quando andas ao murro a um daqueles sacos de boxe também não te inquires sobre o que é que ele tem dentro, onde é que foi fabricado, etc. Simplesmente bates e sentes-te bem. Há pessoas que têm esse espírito na abordagem que fazem a outras pessoas na Internet. Somos sacos de pancada.

Uma comédia romântica e cinema português na mesma frase… o que te deu para te meteres em tal coisa?

Eu não planeei esse filme, Refrigerantes e Canções de Amor, como uma comédia romântica. Aliás, no seu íntimo, eu nem imaginei que poderia ser um filme. Escrevi aquilo em 2008 como reacção ao fim do meu primeiro casamento. Com o andar da escrita acabou por tornar-se também uma reacção ao momento em que me apaixonei pela Ana. Começa com a angústia de uma separação e acaba com a euforia de uma nova paixão. Não estando ali a minha história e não sendo eu o protagonista, está ali muito do que me ia na cabeça naquela altura. Isso e um dinossauro cor de rosa. Escrevi, e desde então o Luis Galvão Teles tem dedicado parte da sua vida a tentar arranjar maneira de fazer o filme. De repente, todos estes anos depois, ganhamos o concurso do ICA. Primeiro fiquei histérico de felicidade e depois pensei “porra, eu já não me lembro de nada do que se passa naquela história, só os traços gerais”. Então fui, aterrorizado, reler o argumento pela primeira vez em 7 anos, a pensar que se calhar agora escrevia aquilo tudo de outra maneira, o que é tramado quando se tem um subsídio para fazer aquilo que está ali e que o júri aprovou. E ri-me com gosto, o que me aliviou. Acho que está ali uma das coisinhas melhores que escrevi na vida. É uma comédia romântica, mas – espero eu – é demasiado retorcida, imprevisível e original para ser um mero “boy meets girl”. Queremos que seja uma coisa fixe.

E as dobragens para filmes de animação? É só para humilhares os pais dos colegas do teu filho na escola não é?

No fundo é uma coisa egoísta – aquilo dá-me um gozo imoral. Não é para humilhar ninguém, mas é um prazer demente. É claro que ver o meu filho orgulhoso por eu ser a voz do Bing Bong ou do Finn McMissil é uma maravilha.

nuno-markl

Tendo em conta que só te falta um Daily Show, até que ponto te sentes o Yoda da comédia em português, como muitos te chamam? O CV não te sobe à cabeça?

Não, nem mesmo quando aparece malta na net a dizer “mas de onde é que apareceu este Markl que não tem piada nenhuma?”. Há um lado em mim que pensa em responder “de onde é que eu apareci? Toma lá o meu CV, garoto!”. Mas depois passa-me logo. Acho que nunca brandi o meu CV para nada. Se por esta altura, com 44 anos de idade e 20 de carreira há pessoas que não me acham graça, não vale a pena pensar que as vou catequizar. As coisas são o que são. A única coisa que quero, cada vez mais, é fazer coisas pessoais, mesmo que menos lucrativas que as coisas menos pessoais. Estou histérico para fazer filmes. Este do Luis Galvão Teles e depois o Por Ela, aquele que submeti a crowdfunding. Só pelo gozo de os ver feitos e de os ver estreados e de pensar “isto sim, são coisas que me saíram das entranhas, não são coisas feitas a pensar nas expectativas que as pessoas têm de mim ou em estudos de mercado”. A razão porque faço campanhas publicitárias, coisa a que certas pessoas apontam o dedo com fervorosos gritos de “vendido!” é, precisamente, para depois poder ter um ano mais calmo, por exemplo, a trabalhar num filme. Poder não fazer o 5 Para a Meia-Noite, que me estava a matar de cansaço, por exemplo. “Vendermo-nos” é conseguirmos o privilégio de podermos depois ter tempo para fazer trabalhos pessoais. Não é tornarmo-nos em bestas milionárias, até porque estamos em Portugal. Só se torna besta milionária quem já nasceu besta milionária. Os outros, podemos regalar-nos com tentar ter uma vida tranquila e sem sobressaltos para nós e os nossos filhos. É o que eu almejo. Isso e ir fazendo coisas cada vez mais pessoais e não pressionadas pelo “sucesso”, seja filmes seja uma experiência radical como o Uma Nêspera no Cu.

Para não ser tudo sucesso, ainda tens um dos maiores e mais activos Facebooks do país. Depois de muito contacto com o público português, ainda não sentes vontade de espreitar as consultas externas do Júlio de Matos?

Não, porque sinto que tudo o que faço é terapia, de certa forma. Por bizarro que pareça, aturar pessoas como tu é libertador! Ah ah ah ah!

Já te explicaram que uma man-cave é para estar cheia de revistas de gajas e posters de futebol? Tem sido gratificante mostrares a tua cave cheia de legos e outra geekices no teu site/blog?

O conceito de man-cave é variável, mas eu não preciso de revistas de gajas porque sou casado com uma que é extraordinária. De resto, tenho uma máquina de flippers, que ainda por cima é dos Sopranos. Isso tem de me dar man-points, ou não? Eu uso a cave quase como um estúdio caseiro de TV, ou um cenário de uma sitcom que não existe. Isso é divertido.


Alguma vez viste o interior de um centro de emprego?

Sim, porque a minha mãe trabalhava no Instituto de Emprego e Formação Profissional. Que era um centro de emprego. Seja como for, ninguém está seguro. Trabalho em TV e rádio em Portugal, não nos Estados Unidos ou em Inglaterra. Vivemos num país e numa era em que se vai de bestial a besta num abrir e fechar de olhos. Todos sabemos que a morte é certa, mas há também grande probabilidade de, antes da morte, termos a nossa morte profissional, o esquecimento, o telefone parar de tocar, os e-mails pararem de chegar. Estar neste ofício e neste meio é estar continuamente a lutar para continuar a ser relevante, de alguma forma. Porque a queda pode estar ao virar da esquina. Quem vê de fora esta amostra deprimente de “star system” que temos, acha que isto é tudo facilidades e garantias para a vida, mas não. O êxito é efémero.

Nuno, o que diz o teu histórico do Browser?

Por estes dias é aborrecido. Páginas e páginas de notícias sobre o regresso do Star Wars. Gosto daquilo, o que é que hei-de fazer? Ando numa sede tão grande de Star Wars que, para além de estar a seguir a série animada Star Wars Rebels, desatei a ver a serie Clone Wars, a que nunca liguei porque havia ali qualquer coisa na estética que não me puxava. Tenho descoberto que há ali óptimos guiões de episódios. Sou muita geek, pá. Só não sou mais porque não tenho tempo.

Enumera as 5 coisas que te deixam mesmo muito Zangado e duas ou três que te acalmem (sem ser a Ana ou o rapazola que já tem mais piada do que tu)

Não há 5 coisas que me deixem zangado, há só uma: estupidez. Estupidez nas suas inúmeras cambiantes e sabores. Estou cada vez com menos tolerância para a estupidez. Deve ser da idade. O que me acalma: fazer Lego. Outro dia vi o Lego Brickumentary, que é um documentário muito engraçado. A dada altura entrevistam o Trey Parker, do South Park. E ele diz uma coisa que acerta em cheio: diz que quando era miúdo adorava criar o que a imaginação lhe ditasse com uma caixa cheia de peças. E que na idade adulta, como acabou por viver de criar, e como criar e como é profissionalmente obrigado a criar todos os dias a toda a hora, nada lhe dá mais prazer nos tempos livres que construir sets de Lego com o manual de instruções e ter alguém, no fundo, que lhe diga “mete esta peça em cima desta e esta em cima desta”. É isso mesmo. Adoro construir estes prédios e estas naves enormes. Para além do tempo de qualidade pai-filho que isso representa. Outras coisas que me relaxam: banalidades, ver séries e filmes. Ouvir podcasts. Cascar no Homem Zangado, quando ele diz disparates. O que é muitas vezes, mas lá no fundo eu sei que ele é um tipo gentil.

E foi a entrevista possível. Depois fomos os dois para a cave montar legos. Por falar em cave, tudo o que meta Markl ou onde o Markl esteja metido está disponível em acavedomarkl.pt

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