Corta-Unhas Melancólico, a Alegrar a Escrita Criativa

Ele é um corta-unhas, e como quase todos, é melancólico. Comecei por desafiá-lo para um concurso de felácios em Janeiro e continuo claramente a perder. Para reverter as coisas, encontrei-me com ele numa sala de chat e finalmente consegui uma entrevista a um dos melhores que por aí anda. O conteúdo esclarece:

Corta-Unhas Melancólico, já experimentaste antidepressivos?

Felizmente nunca tive necessidade. Se me sentir em baixo vou ver clips do Big Show Sic. As cores berrantes, a música pimba e pessoas mascaradas a saltitarem de um lado para o outro são o suficiente para ter a certeza que, apesar de tudo, a vida vale a pena (risos). Vou colocando estas coisas entre parêntesis para dar a ideia de que esta entrevista foi presencial.

Para registar um ponto pt tiveste de dar o número de contribuinte. Não tens medo que através disso alguém te mande prender daqui a uns tempos?

Não tive que dar o número de contribuinte. O domínio foi uma oferta dos meus amigos da Cloud4You, a melhor empresa de alojamento do Mundo na área do web design, alojamento web, cloud storage e domínios. O domínio foi a única coisa que recebi pela minha escrita. Mas não tenho problemas nenhuns em partilhar o meu número de contribuinte. É o 228745434. Tenho muito orgulho nele e é uma parte muito importante da minha identidade (neste momento a voz torna-se um pouco embargada por causa da emoção). Quando me perguntam “Quem és?”, a primeira coisa que me vem à cabeça é o meu número de contribuinte e só depois o meu nome. Antes de tudo sou um contribuinte deste país e só depois uma pessoa. Um dos problemas dos dias de hoje é as pessoas serem tratadas mais como pessoas do que como números. Eu sou o 228745434 com muito orgulho. (manda murro na mesa)

O que achas dos atuais direitos de expressão? ‘Tá bom ou parece a PIDE outra vez?

Nas democracias ocidentais podemos dizer o que quisermos. Mas cada pessoa tem um agente da PIDE dentro de si que não a deixa passar certos limites implícitos. O meu chama-se Inspector Simões (faz um semblante carregado como quem está a reflectir profundamente numa questão que o deixa muito preocupado).

Legalize e capitalize ou nem sabes do que estou a falar?

Penso que sei do que estás a falar. Estás a falar de droga, não é? Acho que sim. A partir do momento em que o cloreto de etilo é legal e se vende em farmácias sem receita médica, tudo o resto devia ser legalizado. A única droga que eu acho que devia ser ilegal era o tabaco. Se o tabaco fosse ilegal ninguém fumava. Ninguém iria a um dealer comprar uma droga cujo único efeito é uma ligeira tontura e mau hálito.

Não achas injusto gajos como tu terem muito mais talento que o Nilton e mesmo assim terem de trabalhar fora da comédia para ganhar a vida?

É difícil responder a essa pergunta sem parecer ressabiado ou politicamente correcto. Antes de tudo, obrigado pelo elogio. Não sei se sou mais talentoso que o Nilton. Não sou um seguidor muito próximo da carreira dele, nem nunca fui a um espectáculo dele mas confesso que já me ri com coisas que ele fez.Posto isto, vou dar uma resposta que não tem nada a ver nem comigo nem com o Nilton (respira fundo e dá um grande gole no seu copo de whisky porque vai dizer uma coisa profunda).

Vivemos numa sociedade extremamente competitiva, competitiva demais. Ou somos vencedores, ou somos perdedores. Para agravar, acreditamos na falácia segundo a qual factores intrínsecos como o talento ou até o trabalho são os únicos responsáveis pelo sucesso de uma pessoa. Isto coloca uma carga demasiado pesada sobre os perdedores, visto que eles perderam porque são maus e não porque tiveram azar, por exemplo. Dá também aos vencedores a falsa concepção de que o seu sucesso se deve unicamente às suas capacidades extraordinárias. No entanto, por detrás do sucesso ou do fracasso existem demasiados factores extrínsecos, como a sorte, ligações familiares, ter nascido em determinado sítio, em determinado tempo… Isto leva a que em todas as áreas de actividade existam pessoas que não são assim tão talentosas a terem sucesso e milhares de pessoas com muito talento a não serem reconhecidas. Isto acontece na comédia, na música, na literatura, na gestão, na ciência… O mundo é injusto por natureza mas temos que saber conviver com essa injustiça. Temos que dar sempre o nosso melhor e acreditar que podemos conseguir mas ter a noção de que nem tudo depende de nós. Provavelmente vamos falhar, o que pode custar. Mas acho que reconhecer a evidência de que o Mundo é injusto ajuda-nos a lidar melhor com o fracasso, a termos uma noção realista daquilo que podemos conseguir e a não termos ressentimento em relação àqueles que têm sucesso. Mais uma vez, isto não é nem sobre mim, nem sobre o Nilton.

Não raramente dás também conselhos sobre como fazer isto ou aquilo. O próximo passo é apresentar o Querido Mudei a Casa?

Na semana passada demorei 3 horas para mudar o suporte do meu chuveiro. Se eu apresentasse um programa do tipo Querido Mudei a Casa o querido chegava a casa e ia ter que se esforçar muito para perceber que mudança foi efectuada. Não ia haver choradeiras. “Porra, estiveram aqui uma semana e só mudaram o tampo da sanita?”

O que esperas atingir com o teu site?

Divertir-me, divertir os outros e a paz no Médio Oriente. Tudo o que se passa naquela região tem repercussões no resto do Mundo e a sua estabilidade seria muito importante para todos nós. Alguém tem que fazer alguma coisa sobre isso e eu acho que sou a pessoa certa. Há muito caminho por percorrer mas acredito que com persistência chegaremos lá. Cada disparate que eu escrevo é mais um passo em direcção à paz mundial e ao fim da pobreza.

E gajas? Tens notado mais engate subtil nos comentários ou continuas a tentar com estrangeiras no Tinder?

Nunca me tentaram engatar nos comentários, nem em lado nenhum. Sempre tive que fazer pela vida. Curiosamente “engatei” a minha namorada na caixa de comentários do blog dela há quase 6 anos. Não era um blog de moda. Isto faz de mim uma espécie de Zezé Camarinha das caixas de comentários e a esperança dos jovens que querem engatar a Pipoca Mais Doce. Daí nem sequer saber bem o que é o Tinder, a não ser através de relatos de amigos.

Por falar em relações humanas; Estão as redes sociais a isolar cada vez mais as pessoas no seu próprio egocentrismo ou desde que há Playstation já estava tudo perdido à priori?

Não está tudo perdido mas, de facto, as redes sociais vieram exacerbar o nosso egocentrismo original. É irónico que se chamem redes sociais quando, na verdade, consistem na maior parte das vezes numa interacção entre milhões de egos, cada um a falar para seu lado (pára de falar, dirige-se a um canto da sala e passa 5 minutos a bater com a cabeça na parede) Em geral, nas redes sociais, as pessoas procuram muito para si próprias e dão muito pouco aos outros. Por outro lado, dá para mantermos contacto com pessoas com as quais nunca manteríamos contacto sem redes sociais e podemos ressentir as suas vidas perfeitas, os seus bebés e os seus trabalhos perfeitos. Acabaram-se os tempos do “sabes que é feito de fulano de tal? Já não ouço falar dele há 20 anos”. O que é pena, porque às vezes é bom não ter notícias de alguma pessoas.

Correio da Manhã ou Semanário Sol?

Vou usar o mesmo critério que as varejeiras usam para escolher entre tipos diferentes de cocó. Geralmente escolhem o tipo de cocó que julgou ter desmascarado o estripador de Lisboa porque um maluquinho disse que era o estripador de Lisboa.

Corta-Unhas Melancólico, o que diz o teu histórico do browser?

O histórico do meu browser não diz nada. Porquê? O que é que ouviste sobre isso? (começa a revelar sinais visíveis de nervosismo e a olhar para trás como se estivesse alguém a persegui-lo).

Enumera, até vinte e duas no máximo, as coisas que mais te Zangam.

Vinte e duas?! A partir das cinco vou começar a dizer coisas aleatórias, figuras do neoliberalismo e do neoconservadorismo ou jogadores do Porto da década de 90. Aqui vai:

Pescada cozida com batatas; casas de banho de festivais; a música “Jardins Proibidos”; a Teresa Guilherme; Friedrich Von Hayek; casamentos que não tenham leitão; Milton Friedman; Vítor Gaspar; Ayn Rand; Paulinho Santos; Ludwig von Mises; George W. Bush; Dick Cheney; tábuas de passar a ferro; Durão Barroso; Bandeirinha; Margaret Thatcher; Capucho; António Borges; Ronald Reagan; cancro; Donald Trump.

trump-corta-unhas-melancolico

Depois de vários estudos foi confirmado que tanto no Twitter como no Facebook ou mesmo no site oficial, ler regularmente o corta-unhas reduz em muito a melancolia, por isso, toca a estar atento!

Share

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Share